Blog do Cinema ParaIST
- Grupo de Cinema do Instituto Superior Técnico -
sexta-feira, abril 09, 2004
Shattered Glass
Deu-se o caso de poder ir ver a ante-estreia do filme SHATTERED GLASS.Aprontei-me para mais uma sessão de cinema e parti sem esperar muito do filme.
Sabia, apenas, que se tratava de uma história verídica de um jornalista que “fabricava” os dados das suas reportagens.
Passado os pouco mais que 100 minutos que duraram o filme, posso dizer (e devo dizer) que há mais neste filme do que à partida muita gente esperaria.
Isto não quer dizer que estejamos perante um grande obra, mas entre os 9 filmes que estrearam esta semana este seria uma das boas escolhas.
O filme traz-nos Hayden Christensen no seu primeiro papel de relevo após ser Anakin Skywalker em O ATAQUE DOS CLONES.
Seria a oportunidade certa para ver o que ele vale. E o que vemos é... um actor metido na pele de uma personagem que, tirando os pequenos rasgos de maior emoção, é demasiado subserviente e demasiado apático. Convenhamos que não é o melhor tipo de personagem para se tirarem conclusões sobre interpretação.
Mas falando sobre o filme, há primeiro a elogiar a inteligente montagem que nele se revela.
A história não parece ter complexidade suficiente para fazer o filme perdurar e, para além disso, o facto de muitos já irem para a sala conhecendo a história não ajuda.
No entanto o filme vale-se do suspense (como se de um thriller se tratasse) para manter o espectador interessado, pois se o que acontece é sabido, a reportagem que especificamente vai levar à descoberta das mentiras, não.
E este é o ponto chave.
Mas não é o único, já que há uma montagem intercalada da vida de Stephen Glass - nome do jornalista protagonista do filme - com uma palestra que ele (supostamente) está a dar a alguns alunos de jornalismo que permite extrapolar um pouco mais das motivações de Glass. Não se trata apenas de carreira e dinheiro, há nele uma necessidade de aceitação, de reconhecimento, de ser considerado um modelo.
Para determinar estas mesmas motivações seria muito útil – sobretudo numa personagem com tão poucas emoções - um maior desenvolvimento dos pequenos apontamentos sobre a pressão exercida pelos pais e pelo meio onde Glass nasceu.
Ficam-se pelos apontamentos e perde-se um pouco da determinação da psicologia da personagem – ou, pelo contrário, ganha-se uma personagem mais misteriosa e interessante!
No final, o filme deixa-nos uma importante reflexão sobre a validade dos meios de comunicação actuais.
Passa no exame com segurança mas sem distinção.
12 em 20 e não se fala mais nisso.
Carlos Antunes @ Fila X : 21:26
quarta-feira, abril 07, 2004
"Carandiru" - Brasil é samba, futebol e telenovelas... e cinema pelo que consta.
Acabadinho de chegar da ante-estreia de "Carandiru", mais uma pérola do cinema brasileiro (produção argentino-brasileira), não resisti em fazer uma referência ao que parece óbvio. Brasil não tem só de bom o que é referido usualmente como samba, futebol e telenovelas. O cinema brasileiro é bom, os filmes concorrem aos mais importantes festivais, e mais importante são sucessos de bilheteira.O meu comentário é fortemente baseado no aclamadissímo "Cidade de Deus" (de Fernando Meirelles), e no ainda por estrear "Carandiru" (de Hector Babenco, argentino naturalizado brasileiro), que quer-me parecer que vai seguir as pisadas do seu "antecessor" cinematográfico, mas o vasto currículo do bom cinema que se faz no Brasil está longe de ficar por aqui, lembro-me de "Central do Brasil", que levou Fernanda Montenegro a uma nomeação para um Óscar de Melhor Actriz. No entanto, os dois filmes já referidos serão os mais visados nestas palavras.
Pondo de parte os elogios, e escrevendo com menos euforia e mais objectividade.
"Carandiru", transporta-nos para o universo da, actualmente demolida, prisão de São Paulo com o mesmo nome, que chegou a ser a maior da América Latina. O filme mostra-nos o quotidiano de um estabelecimento prisional, com 7500 reclusos, e capacidade para 4000. Focando o código dos prisioneiros, as hierarquias, a droga, a SIDA (AIDS em "brasileiro"), a homossexualidade, os guardas, a família e a inocência de todos os presos. Todos estes elementos encontram-se ligados a uma personagem fulcral, o médico da prisão Drauzio Varella (Luiz Carlos Vasconcelos). Este estreia-se na prisão e a sua missão é advertir para a prevenção e riscos da SIDA, além de curar todos os males que afectam os reclusos. A posição priviligiada do médico permite-lhe conhecer a vida dos reclusos, a sua história dentro da prisão e a origem da sua detenção. A amizade que estabelece com eles, permite-lhe estar em contacto com o lado mais humano de uma vivência, que a sociedade desconhece e muitas vezes ignora, e que acaba por ser a sua "escola de vida". As introspecções do médico, transparecem as dúvidas e a dificuldade que um "outsider" tem em sair do conforto da vida em liberdade para "abraçar" e lidar com uma realidade, por vezes nada agradável.
A história culmina com aquele que ficará na história como o Massacre do Carandiru, a 2 de Outubro de 1992, que ocorreu no pavilhão 9 e que vitimou mortalmente 111 reclusos e 0 policías.
À semelhança de "Cidade de Deus", "Carandiru" é um óptimo documento histórico e sociológico, que relata factos com uma assustadora proximidade da realidade. Como que de repente as imagens "vendidas" por telenovelas, carnaval e afins... são substituídas pelo que é a vida daqueles que constituem a maioria dos brasileiros. Estes vivem nas favelas, no limiar da pobreza e condição humana, em que a criminalidade é o pão nosso de cada dia e a vida está longe de ser fácil. Na nossa vida ainda longe desta realidade, é pensativos que deixamos a sala e vamos para casa. E ainda bem que estes filmes nos tocam, por duas horas que sejam não será bom esta dose da vida dura e crua? Penso que sim.
Técnicamente, a fotografia faz a história entranhar-se ainda mais facilmente no espectador, os diálogos e a "narrativa" são fluidos e bem construidos. O filme conta com cenas cómicas e dramáticas, sempre bem colocadas que não prejudicam em nada a fluidez referida. A cenas exteriores do filme foram rodadas no pavilhão 2 do próprio Carandiru, sendo os interiores do Pavilhão 9 reconstituidos em estúdio. As personagens são cativantes e diversificadas e contando com o desempenho de alguma da "nata" dos actores brasileiros, que estamos habituados a ver nas "novelas". Resumindo, este filme é sóbrio e bem construido, conseguindo bons momentos de cinema através de imagens e pormenores marcantes que exploram apenas o espaço físico do estabelecimento prisional.
Quero agora expor uma ideia, que pairou pela minha cabeça quando estava na sala de cinema. Como é que não se fazem ou porque é que não se fazem filmes com esta qualidade ou vertente em Portugal? São óptimos produtos de exportação, e mostram o país de uma maneira que é difícil de igualar, além de serem rentáveis pois são distribuídos pelas melhores distribuidoras e logo chegam aos maiores e mais apetecidos mercados.
Apesar de o cinema português estar em crescendo, continua preso a uma dimensão "pseudo-intelectual" (não que não seja necessária esta vertente no cinema, não pode ser é exclusiva) que o torna por vezes pouco cativante, logo pouco visionado e consequentemente pouco rentável. Este factor é capaz de limitar o crescimento de uma indústria, ainda dependente em 99% do apoio estatal e portanto deficitária em meios, tendo em conta a dimensão económica do nosso país. O filme em questão "Carandiru", teve apoios da Petrobras, Electrobras, Santader e etc., isto só para referir que quando o projecto têm potencial para obter sucesso, o dinheiro aparece.
Não quero com estas palavras dar a ideia, que o cinema deva ser feito para obter lucro, a questão prende-se com o facto de que se o filme gerar dinheiro, mais dinheiro vai ter para gastar e será assim mais fácil obter meios para a sua produção e, apesar de ser discutível, a qualidade aumentará. E uma indústria rentável tem mais dinheiro para investir, o que criará um ciclo vicioso.
Podendo assim serem criados espaços para os diferentes tipos de cinema, mais ou menos independente ou mais ou menos comercial, e assim abranger uma maior diversidade de espectadores.
Até à próxima... e vão ver o "Carandiru".
La Féria @ Fila X : 03:55
terça-feira, abril 06, 2004
Falando sobre Nova Iorque
Lê-se neste blog: "...tudo rodeado pelo pulsar de uma Nova-Iorque pós-11 de Setembro. Esta quase que despedida da vida, carente de qualquer tipo de esperança..."Não deixa de ser curioso a disparidade de perspectivas entre dois dos mais famosos realizadores nova-iorquinos e, consequentemente, com mais intensas relações com Nova Iorque - Woody Allen e Spike Lee.
Comparando os dois últimos filmes de ambos os realizadores, ANYTHING ELSE e 25th HOUR respectivamente, vemos em Lee um sofrimento e uma falta que não podem em nenhum momento ser descuradas na perspectiva que se tem sobre as personagens; e em Allen, um conforto idêntico ao que havia antes do 11 de Setembro.
A explicação para esta diferença deve-se, a meu ver, a vários factores que passarei a enumerar.
Primeiro ponto: a data.
O filme de Lee foi realizado logo após os atentados e ninguém se podia entregar a essa tarefa sem que a todos os momentos se lembrasse do que acabara de acontecer.
O filme do Woody não sofre desse mal. Allen teve tempo de gerir os seus sentimentos e não exorcisa nenhum deles no seu filme.
Segundo ponto: a história que pretendem contar.
A história de Spike Lee é sobre um homem que reavalia o seu passado, do qual não podem deixar de fazer parte os atentados. Esse homem está a ruir e NI parece em sintonia. Talvez ele passasse sem a reflexão, sem o tombo se NI ainda fosse alegre, mas se ela tombou, como pode ele manter-se de pé?
Woody tem de falar sobre o amor (ou as relações se quiserem) sobre o presente e o futuro mais próximo. O passado não é ali chamado e, sobretudo, NI tem de ser sinónimo de conforto. Um lugarejo feito de pequenos locais quase secretos, tão acolhedor quanto discreto. As personagens pensam em tudo menos nessa memória dos atentados, pois para eles o momento é o importante (talvez por isso o rejuvenescimento dos protagonistas dos filmes de Allen em ANYTHING ELSE).
Terceiro ponto: a forma como cada um quis mostrar Nova Iorque.
Para Woody, Nova Iorque teve de voltar a ser aquele sítio acolhedor e simpático que tinha sido antes. NI é um lugarejo sem becos escuros. Tudo é luz, tudo é sereno. NI está em sintonia com a história de amor que lá se vai passar.
Para Lee, NI é uma personagem por si própria e de máxima importância. É apresentada como um colosso ferido. Não é feita de bairros, não se consideram as partes. Só o todo é mostrado - a ferida não é de alguns dos habitantes, é de todos sem distinção.
É certo que muitos discordaram e falarão da personagem de Woody Allen em ANYTHING ELSE - um paranóico em constante preparação de um kit para sobreviver até ao fim do mundo.
Talvez seja assim e no conjunto das suas duas últimas personagens ele esteja a mostrar como se vem sentindo (o realizador cego, como quem quer ignorar a tragédia; e o paranóico das armas, como quem já não consegue viver sem a sombra das torres caaídas constantemente na sua cabeça).
Mas a mim parecem-me o reformular ou o renovar dos tiques e traumas que sempre caracterizaram Allen.
Carlos Antunes @ Fila X : 15:49
